sábado, 29 de dezembro de 2012

como devemos fazer o sinal da cruz?

Como devemos fazer o sinal da cruz?

Caros irmãos (ãs),
Nesta formação, Padre Paulo Ricardo esclarece sobre a correta maneira de fazer o sinal da cruz, nos ensina como surgiu o sinal da cruz, possivelmente no tempo dos apóstolos, a fórmula atual conforme o Cerimonial dos Bispos e outras curiosidades que nos aprofundam no conhecimento e no amor deste sinal que é um sacramental e que remonta o amor incondicional e salvífico de Cristo por cada um de nós.
Alguns comentários contidos no vídeo sobre o sinal da Cruz:
Em cada caminhada e movimento, em cada entrada e saída, no vestir, no calçar, no banho, no estar à mesa, no acender as luzes, no deitar, no sentar, no lidar com qualquer ocupação, marcamos a testa com o sinal [da cruz]. (Tertuliano, De corona militis 3,4. PL 2, 80A [211 d. C.] ). 
Esteja a Palavra de Deus e o sinal da cruz no coração, na boca e na fronte. Em meio à comida, em meio à bebida, em meio às conversas, nas abluções, nos leitos, nas entradas, nas saídas, na alegria, na tristeza. (São Gaudêncio de Bréscia, Sermo VIII, De evangelii lectione primus, PL 20, 890). 
O sinal da cruz deve então ser feito com três dedos, pois ele assinala sob a invocação da Trindade; a respeito da qual disse o profeta: ‘quem pendurou com três dedos a massa da terra?’ (Isaias 40,12). É assim que se desce do alto para baixo, e da direita se passa à esquerda, pois Cristo desceu do céu à terra e dos Judeus passou para os gentios. Alguns [sacerdotes], porém, fazem o sinal da cruz da esquerda para a direita, pois devemos passar da miséria para a glória, assim como Cristo passou da morte para a vida e do inferno para o paraíso, para que eles assinalem a si mesmos e os outros em uma só direção. Se olhares com atenção, também sobre os outros, faremos o sinal da crus da direita para a esquerda, já que não os assinalamos como que dando-lhes as costas, mas apresentando-nos de frente. (Inocêncio III, De sacro altares mysterio, 2, 45. Pl 217, 825).

Bento XVI: Onde Deus não é glorificado não há paz

Bento XVI: Onde Deus não é glorificado não há paz

Ao presidir a Missa de Véspera de natal celebrada na Basílica de São Pedro no dia 24 à noite, o Papa Bento XVI sublinhou que “com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz”.

O Santo Padre lamentou em sua homilia a existência de correntes de pensamento populares que “afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo”.

Segundo as mesmas correntes de pensamento “primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única.”.

O Santo Padre indicou que embora seja “incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz”. “Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros”.

O Papa assinalou que “o tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado.”.

“Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por miserável que seja sua situação, sua dignidade é inviolável”.

Bento XVI remarcou que “no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar”.

“Cristo é a nossa paz e anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto”, .

O Santo Padre também pediu a Deus para que Ilumine a quantos acreditam que devem praticar violência em nome da religião, para que aprendam a compreender o absurdo da violência e a reconhecer o vosso verdadeiro rosto.
“Ajudai a tornarmo-nos homens «do vosso agrado»: homens segundo a vossa imagem e, por conseguinte, homens de paz”, rogou.

O Papa exortou os fiéis a ousarem “o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração.”.

“Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós, concluiu”. 

Fonte: ACI DIGITAL

O diabo realmente existe?

O diabo realmente existe?


O que o Catecismo da Igreja Católica nos ensina sobre o demônio:

§414 Satanás ou o Diabo, bem como os demais demônios, são anjos decaídos por terem se recusado livremente a servir a Deus a seu desígnio. Sua opção contra Deus é definitiva. Eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus.

§391 Por trás da opção de desobediência de nossos primeiros pais há uma voz sedutora que se opõe a Deus (Gen 3,1-5) e que, por inveja, os faz cair na morte (Sab 2,24). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo destronado, chamado Satanás ou Diabo (Jo 8,44; Ap 12,9). A Igreja ensina que ele tinha sido anteriormente um anjo bom, criado por Deus. - "Com efeito, o Diabo e outros demônios foram por Deus criados bons em (sua) natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa." (IV Conc. Latrão, 1215)

§392 A Escritura fala de um pecado desses anjos (2Pe 2,4). Esta "queda" consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e seu Reino. Temos um reflexo desta rebelião nas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros pais: "E vós sereis como deuses" (Gn 3,5). O Diabo é pecador "desde o princípio" (1Jo 3,8), "pai da mentira" (Jo 8,44).

§393 É o caráter irrevogável de sua opção, e não uma deficiência da infinita misericórdia divina, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. "Não existe arrependimento para eles depois da queda, como não existe para os homens após a morte." (S. João Damasceno; De fide orthodoxa. 2,4).

§394 A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de "o homicida desde o princípio" (Jo 8,44) e que até chegou a tentar desviar Jesus da missão recebida do Pai (Mt 4, 1-11). "Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo" (1Jo 3,9). A mais grave dessas obras, devido às suas conseqüências, foi a sedução mentirosa que introduziu o homem a desobedecer a Deus.

§395 Contudo, o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre uma criatura: não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. Embora Satanás atue no mundo por ódio contra Deus e seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos – de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física - para cada homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas "nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam" (Rm 8,28).

Professor Felipe Aquino

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Sacramento da Confirmação

O Sacramento da Confirmação - I PDF Imprimir E-mail
Confirmação
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:13
Pe. Henrique Soares da Costa
No artigo passado terminamos nossa exposição sobre o Batismo. Vimos que neste sacramento somos mergulhados no Espírito do Cristo ressuscitado. Este Espírito nos cristifica e nos dá uma vida nova, a vida do Ressuscitado, aquela vida plena que a Escritura chama de eterna, porque é a vida do próprio Eterno, que é Deus. Também já vimos que, habitados pelo Espírito de Amor, Espírito que é o Amor do Pai e do Filho, somos feitos templos da Trindade Santa. Vamos agora tratar de um outro sacramento, o segundo dos três que constituem a iniciação cristã. Trata-se do sacramento da Confirmação.
Desde os primórdios a Igreja conhece ainda um outro sacramento, intimamente ligado ao Batismo, denominado Crisma ou Confirmação. Em que consiste este sacramento? Qual seu significado? Qual sua fundamentação bíblica? É destas questões que trataremos a partir de agora.
Comecemos com o Catecismo da Igreja Católica, que ensina: ”A Confirmação aperfeiçoa a graça batismal; é o sacramento que dá o Espírito Santo para enraizar-se mais profundamente na filiação divina, incorporar-nos mais firmemente a Cristo, tornar mais sólida a nossa vinculação com a Igreja, associar-nos mais à sua missão e ajudar-nos a dar testemunho da fé cristã pela palavra, acompanhada das obras”. Vale a pena, antes de mais nada, analisar estas palavras acima.
São ditas duas coisas importantes a respeito da Confirmação: ela aperfeiçoa a graça batismal e é o sacramento que dá o Espírito Santo. Ora, será que a graça batismal é imperfeita? Mais ainda: o Batismo já não nos deu o Espírito? Não é no Espírito do Cristo ressuscitado que fomos mergulhados no santo Batismo? Além do mais, como já expliquei na introdução aos sacramentos, todo e cada sacramento nos dá o Espírito Santo e somente no Espírito pode haver sacramento! Então, como compreender estas afirmações do Catecismo?
Afirma-se que a Crisma aperfeiçoa a graça batismal no sentido de torná-la madura, plenamente desenvolvida. Vejamos bem. No Batismo nós recebemos o Espírito do Cristo ressuscitado; ele nos é dado como vida divina, vida nova, vida eterna que faz de nós uma nova criatura. Procure reler tudo quanto dissemos sobre isso ao expor o sacramento do Batismo. Ora, esta vida não é algo estático, parado, congelado; como toda vida, ela vai crescendo sempre mais em nós, vai nos configurando cada vez mais ao Cristo Jesus. O sacramento da Confirmação é o sacramento que leva esta vida recebida no Batismo à sua maturidade. Na Crisma o Espírito que nos tinha sido dado como vida, nos é dado como força divina, força que nos dá a capacidade de testemunhar Jesus, de anunciar o Evangelho e assumir ativamente nosso lugar na Comunidade eclesial. Por isso mesmo diz-se que a Confirmação confirma o Batismo! Não é que este seja incompleto e necessite ser completado; o sentido é outro: a Confirmação nos dá a graça da maturidade cristã, de tal modo que a vida nova recebida no Batismo pode e deve agora, com a Crisma, ser testemunhada e transbordada para os outros com a graça deste sacramento. Em outras palavras: enquanto no Batismo a vida recebida é graça que nos renova e transforma, na Confirmação esta mesma vida é dom que devemos testemunhar e partilhar! Por isso mesmo o crismado deve estar consciente do seu lugar na Comunidade eclesial e do seu dever de testemunhar o Cristo sendo, como se diz, um soldado de Cristo!
Aqui convém eliminar logo um mal entendido. Em geral se afirma que a Confirmação é o sacramento da maturidade cristã e confirma o Batismo porque recebemos este quando criancinha e aquele quando jovem que já sabe o que quer. Não é bem assim! A maturidade que a Crisma nos dá não é a maturidade psicológica; é a maturidade espiritual. Em outras palavras: se uma criancinha for batizada e crismada seu “organismo espiritual”, sua estrutura cristã já recebeu a maturidade!
Então, que fique bem claro: a Confirmação nos concede uma graça distinta do Batismo. Sem este sacramento não há maturidade na vida cristã! Por isso mesmo, rigorosamente falando, todo aquele que assume qualquer trabalho na Comunidade deve ser crismado!
Há ainda uma outra distinção importante no modo de agir do Espírito no Batismo e na Confirmação. No Batismo o Espírito nos é dado como Espírito que tornam o Pai e o Filho presentes em nós, fazendo-nos, assim, templos da Trindade. Na Confirmação, ao invés, o Espírito dá-nos algo que é próprio dele como Terceira Pessoa da Trindade: a força, a coragem, o ânimo, o vigor, a doçura para testemunhar o Senhor Jesus. A fé da Igreja exprimiu isso muito bem com a imagem dos dons do Espírito!
Agora podemos entender porque o Catecismo fala, no texto acima citado, numa mais profunda incorporação a Cristo: é que com a Confirmação o Espírito nos une ao Cristo na sua missão de sacerdote, profeta e rei, para que nós sejamos na Comunidade eclesial e no mundo continuadores de sua missão. Releia o texto do Catecismo que citei acima. Agora penso que tenha ficado bem claro.
No próximo artigo continuaremos. Há muita coisa ainda a explicar sobre este sacramento. É necessário ainda fundamentá-lo biblicamente. Até lá!


O Sacramento da Confirmação - II PDF Imprimir E-mail
Confirmação
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:11
Pe. Henrique Soares da Costa
No último artigo sobre os sacramentos começamos a apresentar a Confirmação. Já expliquei o sentido deste sacramento; hoje veremos como a Igreja fundamentou-o biblicamente. Uma coisa, mais uma vez, é necessário deixar claro: a Sagrada Escritura, com toda a sua riqueza de Palavra de Deus, somente pode ser compreendida de modo correto e pleno quando lida em consonância com a Tradição da Igreja, que nos traz também a divina revelação. Compreenderemos bem a fundamentação bíblica da Confirmação se compreendermos o modo como a Igreja leu a Escritura e a interpretou inspirada pelo Santo Espírito e também o modo como a Igreja, desde as origens celebrou os sacramentos.
Então, vejamos. Já no Antigo Testamento encontramos o dom do Espírito de Deus como força que transforma aqueles que foram escolhidos por Deus para alguma missão em favor do povo de Israel e do plano salvífico de Deus. No Novo Testamento, tempo do Messias (aquele que é Ungido com o Espírito) esta ação do Espírito revela-se em toda a sua plenitude. O Cristo, pleno do Espírito, vem derramar seu Santo Espírito, dando início, com a sua morte e ressurreição, ao tempo da Igreja, que é tempo do Espírito Santo – é o Espírito quem sustenta, orienta e motiva a Igreja na sua missão de testemunhar o Cristo diante do mundo. É aqui que entra o sacramento da Confirmação. Eu já expliquei que no Batismo recebemos o Santo Espírito como vida de Deus que nos vem pelo Senhor Jesus; pela Confirmação este Espírito nos é dado como força de Deus para que assumamos na Igreja e com a Igreja nosso papel de testemunhas de Cristo! Por isso mesmo a Confirmação é o sacramento da maturidade cristã! Vejamos como esta idéia aparece na Escritura Sagrada.
Na noite mesma da Páscoa, naquele Domingo, os apóstolos receberam o Espírito Santo: Jesus soprou sobre eles e os batizou (mergulhou) no seu Espírito de ressurreição (cf. Jo 20,21ss). Ali os apóstolos tornaram-se cristãos, receberam a vida nova do Cristo ressuscitado. Tal experiência dos apóstolos, nós também a fazemos no nosso Batismo: aí recebemos, como eles, a nova vida em Cristo e nos tornamos novas criaturas pelo poder do Espírito Santo: “Fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus” (1Cor 6,11).
Quando apresentei o sacramento do Batismo deixei bem claro que já aí recebemos o Espírito! Não vou mais insistir. Então, a experiência dos apóstolos no Cenáculo, na tarde do dia da Ressurreição equivale ao nosso Batismo. Já no dia de Pentecostes, a comunidade dos discípulos de Jesus recebeu o Espírito Santo de um modo novo, diferente daquele do dia da Ressurreição: agora o Espírito é dado em função da missão de testemunhar Jesus e da construção da Igreja no mundo: “O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força. sereis, então, minhas testemunhas... até os confins da terra” (At 1,8).
Este evento é para toda a Igreja: todos são chamados a ser plenificados pelo mesmo Espírito do Senhor. Assim, os cristãos, após serem mergulhados (= batizados) no Espírito do Cristo ressuscitado, devem ser plenificados com o Espírito de força, que unge para a missão, para o testemunho, participando, assim, da missão salvífica do Cristo Jesus. Ora, desde os tempos apostólicos (e veremos no próximo artigo que a Tradição constante da Igreja o atesta) isto ocorre com um rito próprio que, profundamente ligado ao Batismo, é bastante diferente em relação a ele, já que é conferido à parte, como desenvolvimento, amadurecimento e plenitude do dom da vida batismal; tal rito tem o poder de conferir o dom do Espírito Santo de força e testemunho através do rito de imposição das mãos. Este dom do Espírito como força para o testemunho é concedido após o Batismo: “Convertei-vos e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos pecados, e recebereis depois o dom do Espírito Santo” (At 2,38). A afirmação é interessante: no Batismo já recebemos o Espírito que concede a remissão dos pecados; mas somente após, recebe-se o dom do Espírito (aqui está aquilo que é próprio da Confirmação)! Um outro texto que aponta para a Confirmação é o de At 8,14-17): “Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, ao saberem que a Samaria acolhera a palavra de Deus, para lá enviaram Pedro e João. Estes desceram, pois, para junto dos samaritanos e oravam por eles, a fim de que recebessem o Espírito Santo. Porque ainda não viera sobre nenhum deles, mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus. Impunham-lhes, pois, as mãos, e eles recebiam o Espírito Santo”. Mais uma vez, para que fique bem claro: aqueles samaritanos já tinham sido batizados, já tinham recebido o Espírito Santo (releia os artigos sobre o Batismo: neste sacramento recebe-se o Espírito como Vida de Cristo ressuscitado); agora, pela imposição das mãos, recebem o dom do Espírito, como força do Ressuscitado para a missão – eis o sacramento da Confirmação! Vejamos mais um texto, muito interessante: “(Em Éfeso Paulo) encontrou alguns discípulos e lhes perguntou: ‘Recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?’ – Mas eles responderam: ‘Nós nem sequer ouvimos falar do Espírito Santo!’ Paulo perguntou: ‘Então que batismo recebestes?’ Eles responderam: ‘O batismo de João’. Paulo continuou: ‘João ministrava um batismo de conversão e pedia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, Jesus’. Eles o escutaram e receberam o Batismo em nome do Senhor Jesus. Paulo lhes impôs as mãos, e o Espírito Santo veio sobre eles: falavam em línguas e profetizavam” (Ef 19,1b-6). Compreendamos! Paulo vai a Éfeso, encontra na comunidade cristã um grupo de doze pessoas; Paulo supõe que sejam cristãos, que tenham sido batizados. Ele deseja saber se receberam também a Confirmação: “Recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?“ – Em outras palavras: fostes também confirmados com o dom do Espírito?” Para sua surpresa, aqueles lá ainda não eram cristãos; a catequese tinha sido mal feita: “Nós nem sequer ouvimos falar do Espírito Santo!” Paulo se espanta! Como pode ser, se já são cristãos, se já receberam o Espírito Santo no Batismo? Ou, afinal, que batismo eles teriam recebido? E Paulo fica sabendo que eles tinham recebido o batismo de João (ao que tudo indica de alguma seita que acreditava que João era o messias). Então Paulo os batiza com o Batismo cristão, o sacramento do Batismo (e eles recebem o Espírito como Vida de Cristo) e, depois, os confirma pelai imposição das mãos e eles recebem o dom do Espírito como Força de Cristo; tanto que logo após já começam a testemunhas falando em línguas e profetizando! Portanto, sem o dom do Espírito como Força do Ressuscitado, recebido na Crisma, fica faltando algo à vida do crente: em certo sentido, ela é incompleta. Claro que a ação do Espírito é livre e gratuita: Deus liga a Igreja aos sacramentos, mas ele mesmo não é ligado a sacramento nenhum; seu Espírito sopra onde quer (cf. Jo 3,8). Por isso mesmo é que desceu sobre Cornélio e sua família antes ainda que eles tivessem recebido o Batismo (cf. At 10,44-48). Isto, no entanto, foi um caso excepcional, para mostrar que o caminho da evangelização deveria ser aberto aos pagãos. Tal passo fato era tão importante e tão difícil de ser dado pela Igreja, que o Espírito agiu deste modo todo especial naquele caso concreto. No entanto, o modo ordinário, “normal” de se receber o Espírito é pelo Batismo e pela Confirmação. Como já disse, se Deus não se submete aos sacramentos, submete, no entanto, a Igreja, que deve obedecer e usar os meios ordinários que o Senhor nos dá!
Então, deve ter ficado claro que desde a época apostólica o Espírito é dado no Batismo e, ligada ao Batismo mas com um rito próprio e num modo diverso, na Confirmação. No Batismo o Espírito é Vida de Cristo em nós e na Confirmação o mesmo Espírito é Força de Cristo em nós, transbordando para que participemos da missão do Senhor, dando testemunho dele e colaborando na edificação da Igreja.
No próximo artigo veremos como a Confirmação foi celebrada nas diversas fases da história da Igreja; assim compreenderemos seu rito nos nossos dias. Até lá!

O Sacramento da Confirmação - III PDF Imprimir E-mail
Confirmação
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:10
Pe. Henrique Soares da Costa
Depois de termos visto a fundamentação bíblica para o Sacramento da Confirmação, veremos como a celebração deste sacramento desenvolveu-se no decorrer da história. Para isto seguiremos muito de perto o Catecismo da Igreja Católica.
Nos primeiros séculos o Batismo e a Confirmação eram celebrados conjuntamente, era uma espécie de “sacramento duplo”, como dizia o santo Bispo Cipriano de Cartago, no século III. O recém batizado, chamado neófito (que significa neo-luminado), logo ao sair da água, era ungido pelo Bispo com o santo Crisma, o óleo que significava o dom do Espírito Santo. Por exemplo, a Didaqué, o primeiro catecismo da Igreja, escrito no final do século I, prescreve assim o rito do Batismo e da Confirmação: “Primeiramente ungirás com o óleo, depois batizarás com água e terminarás selando com o Crisma, para que a unção seja participação do Espírito Santo”. Observemos bem: a unção com óleo antes do Batismo é aquela que hoje o sacerdote faz no peito do que será batizado: a unção com o óleo dos catecúmenos, que simboliza a força de Cristo para que o que será batizado possa combater o Diabo. Depois a Didaqué fala em selar com o Crisma. Aqui, sim, temos o sacramento da Confirmação! Esta unção era feita pelo Bispo, sucessor dos Apóstolos e pai da Comunidade. Trata-se da unção que da a participação no Espírito Santo, no sentido que vimos nos artigos passados.
Com o multiplicar-se do Batismo de crianças e o crescimento das paróquias rurais não era mais possível a presença do Bispo no momento do Batismo. No Ocidente começou-se, então, a separar o Batismo (administrado pelo sacerdote) da Confirmação (reservada ao Bispo, que crismaria depois, quando visitasse a paróquia); já no Oriente continuou-se a administrar os dois sacramentos juntos, mas quem crismava já não era o Bispo (que não estava presente), mas o próprio sacerdote. Porém crismava com o óleo consagrado pelo Bispo. Hoje, no Ocidente, o sacerdote somente pode crismar se batizar já alguém adulto; aí sim, ele batiza e crisma num só rito.
Importante no rito da Confirmação são os seguintes aspectos:
a) O santo Crisma, que significa o selo do Espírito Santo. Na Escritura o óleo é símbolo de abundância e de alegria, ele purifica, torna ágil no combate, é sinal de cura, da beleza ao rosto e traz saúde e força. O óleo do Crisma significa de modo todo especial a consagração do recém-batizado a Cristo: como Jesus, ele é ungido e participa da missão do Senhor. É importante notar que a própria palavra “Cristo” (em grego) ou “Messias” (em hebraico) significa “Ungido”, ungido para missão. Pois bem, pela unção com o santo Crisma, o cristão participa da unção de Cristo, ele que foi ungido pelo Espírito Santo. Como Cristo e em nome de Cristo, o crismado deve difundir no mundo o “bom odor de Cristo” (2Cor 1,22). Assim, por meio dessa unção o crismado recebe a marca, o selo do Espírito Santo: ele agora pertence a Cristo e é participante da missão do Senhor: “É Deus mesmo que nos confirma em Cristo, juntamente convosco, e nos conferiu a unção, imprimindo em nós o selo, dando-nos o penhor do Espírito nos nossos corações” (2Cor 1,22). O santo Crisma é consagrado pelo Bispo na Missa do Crisma, na Quinta-feira Santa pela manhã. É importante esta presença do Bispo, porque é ele, com pai da Comunidade, quem discerne e organiza os vários carismas e ministérios na Igreja. Assim, a Crisma, sacramento do testemunho cristão é presidida pelo Bispo e o santo Crisma é por ele consagrado.
b) Outro elemento importante na Confirmação é a imposição das mãos. É um gesto que vem dos apóstolos e significa o dom do Espírito do Cristo ressuscitado. O Bispo estende as mãos sobre os que serão confirmados e diz: “Deus todo-poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que pela água e pelo Espírito Santo, fizestes renascer estes vossos servos... enviai-lhes o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o Espírito da sabedoria e inteligência, o Espírito de conselho e de fortaleza”...
c) Depois disso o Bispo unge a fronte de cada crismando dizendo: “Fulano, recebe por este sinal o Espírito Santo, Dom de Deus”. Note-se bem: o Dom de Deus é o próprio Espírito Santo, que nos dá a força para viver e testemunhar a vida cristã. Enquanto o Bispo unge com o dedo polegar, a palma de sua mão deve estar na cabeça do crismando: é uma segunda imposição das mãos, desta vez uma mão só. Este gesto de ungir com o Crisma impondo a mão sobre o crismando é o essencial do sacramento da Confirmação. Antigamente, depois da unção, o Bispo dava uma pequena bofetada na face do crismado, significando que ele agora era um soldado de Cristo.
Após a unção o Bispo diz ao crismado: “A paz esteja contigo!”, significando a comunhão na Igreja entre o que foi crismado e o Bispo, pai de todo o rebanho.
É importante observar que o ideal é que este sacramento seja celebrado dentro da Missa, momento forte da vida da Igreja.
Por agora é só; no próximo artigo concluiremos nossa apresentação do Sacramento da Confirmação. Até lá!


O Sacramento da Confirmação - IV PDF Imprimir E-mail
Confirmação
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:09
Pe. Henrique Soares da Costa
Com este artigo vamos concluir nossa apresentação do sacramento da Confirmação. Depois das três exposições anteriores, podemos, como síntese conclusiva, apresentar as seguintes afirmações:
(1) O sacramento da Confirmação é de instituição divina, enquanto sinal eficaz do dom do Espírito, prometido no Antigo Testamento e doado por Cristo na sua ressurreição. Este Espírito, Cristo o concedeu à sua Igreja e ordenou-lhe comunicar a todos os que nele cresses. Assim, o Santo Espírito é força que transforma aqueles que pelo Batismo foram lavados e renovados em Cristo Jesus, o Ungido (= Cristo, Messias) por excelência. O Cristo, pleno do Espírito, derramou seu Santo Espírito, dando início, com a sua morte e ressurreição, ao tempo da Igreja, que é tempo do Espírito Santo – é o Espírito quem sustenta, orienta e motiva a Igreja na sua missão de testemunhar o Senhor Jesus diante do mundo. Se no Batismo recebemos o Santo Espírito como vida de Deus que nos vem pelo Senhor Jesus, é pela Confirmação que este Espírito nos é dado como força de Deus para que assumamos na Igreja e com a Igreja nosso papel de testemunhas de Cristo! Por isso mesmo a Confirmação é o sacramento da maturidade cristã, já que nos faz participantes da missão de Igreja como testemunha e anunciadora do Cristo!
(2) Neste sentido, podemos e devemos dizer que a Confirmação aperfeiçoa (leva a uma nova maturidade e plenitude) a graça batismal, já que a vida recebida no Batismo transforma-se aqui em força que nos faz ocupar nosso lugar na comunidade eclesial e no empenha como cristãos diante do mundo. Daqui a afirmação do Concílio Vaticano II: “Pelo sacramento da Confirmação vinculam-se mais perfeitamente à Igreja e recebem especial vigor do Espírito Santo: ficam assim mais seriamente comprometidos como testemunhas verdadeiras de Cristo a difundir e defender a fé, por palavras e por obras” (LG 11).
(3) É errado pensar que a Confirmação é necessária porque fomos batizados ainda crianças e, portanto, é necessário confirmar conscientemente o nosso Batismo. É importante recordar que na Igreja antiga (e ainda hoje nas Igrejas Orientais) a Confirmação é dada à criança logo após o Batismos e juntamente com a Comunhão. Assim, a criancinha, apesar de psicológica e humanamente imatura, é já maturada do ponto de vista da ontologia da graça, isto é, de sua estrutura espiritual. Além do mais, quando a Igreja batiza adultos, os confirma imediatamente após o Batismo, na mesma celebração. A Confirmação é necessária porque nos dá o Espírito de força para ocupar efetivamente nosso lugar na Igreja. Deste modo, ninguém deveria receber um ministério, uma tarefa na Comunidade antes de ser crismado! Rigorosamente, para ser catequista, leitor, acólito, evangelizador, para casar-se (belo serviço de testemunho do amor entre Cristo e a Igreja) e até para receber a Eucaristia deveria ser exigido o sacramento da Confirmação. Como os leitores podem observar, aqui há muito que pensar sobe nossa prática pastoral!
(4) O rito essencial deste sacramento é a unção com o óleo do Crisma, consagrado pelo Bispo na Missa do Crisma da Quinta-feira Santa, simbolizando o dom do Espírito Santo, e a imposição das mãos, que ainda que não sendo o gesto mais importante, é extremamente significativo e, por isso mesmo, sumamente recomendável: os cristãos nela reconhecem, desde os Atos dos Apóstolos, um sinal do dom do Espírito Santo.
(5) O ministro originário da Confirmação é o Bispo. E isto tem um sentido profundo: se o Confirmado recebe a força do Espírito para assumir seu ministério na Comunidade, é extremamente significativo a presença do Bispo, Pai e Pastor da Comunidade eclesial. O encontro pessoal do que vai ser crismado com o Bispo coloca em evidência e sublinha o compromisso pessoal do confirmado, dentro da comunidade eclesial concreta, representada pela pessoa do Sucessor dos Apóstolos. Neste sentido o Bispo deve ter o máximo cuidado de estar pessoalmente presente para administrar este sacramento, somente em último caso delegando a um sacerdote esta missão, originariamente episcopal. Caso contrário corre-se o sério risco de um esvaziamento do sentido do sacramento. Não esqueçamos que a Igreja latina separou a administração da Confirmação da administração do Batismo exatamente para que o Bispo pessoalmente pudesse confirmar!
(6) Um problema seríssimo, e que ainda não está resolvido satisfatoriamente, é a ordem na qual os sacramentos devem ser administrados. Não é nada boa a ordem atual: Batismo-Eucaristia-Confirmação. A ordem tradicional e que melhor exprime o sentido dos três sacramentos é Batismo-Confirmação-Eucaristia. Com isso, aparece clara a ligação entre Batismo e Confirmação e também o fato de a Eucaristia ser a plenitude a vida do discípulo de Cristo e o cume da iniciação cristã. Não tem muito sentido receber a Eucaristia, plenitude da vida cristã e da união com o Senhor Jesus e, somente depois, receber a Crisma. É a Eucaristia, sacramento do Corpo de Cristo, quem nos dá a força para atuar no Corpo de Cristo que é a Igreja. Quem não tem seu lugar no Corpo de Cristo não pode comungar no Corpo de Cristo! Ora, para isso, é necessário estar crismado com a força do Espírito Santo! Esperamos que a Igreja encontre o quanto antes uma melhor ordenação pastoral para estes três importantíssimos sacramentos da iniciação cristã.
(7) É dever de todo cristão receber o sacramento da Confirmação; sem este sacramento não se chega à maturidade cristã. Por isso mesmo, tanto os pastores da Igreja como também os pais e padrinhos de batismo têm o dever de conscientizar os cristãos ainda não crismados da necessidade de receber este sacramento o mais breve possível. No Ocidente antigo assim que o Bispo visitava uma comunidade, procurava crismar as crianças ainda não crismadas. Hoje, a Igreja recomenda que tão logo o cristão chegue à idade de uma certa maturidade, seja crismado.

O Sacramento da Eucaristia

O Sacramento da Eucaristia – I PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:26
Pe. Henrique Soares da Costa
Vamos, agora, tratar de Eucaristia, o último dos sacramentos da iniciação cristã, o último dos sacramentos que nos inserem na vida do Cristo morto e ressuscitado, fazendo-nos plenamente cristãos. Trata-se do maior e mais sublime de todos os sacramentos, o Sacramento por excelência – o Santíssimo Sacramento!
Como falar deste sacramento é muito complexo, dada a riqueza e a pluralidade de facetas da Eucaristia, vamos seguir o esquema do Catecismo da Igreja Católica, comentando-o e aprofundando-o. E vamos iniciar precisamente citando Catecismo: O nosso Salvador instituiu na Última Ceia, na noite em que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue, para perpetuar no decorrer dos séculos, até ele voltar, o sacrifício da cruz, e para confiar, assim, à Igreja, sua amada esposa, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da glória futura” (n. 1323). Estas palavras resumem de modo admirável o sentido e a riqueza da Eucaristia. Já aqui é interessante observar algo muito importante: quando falamos em Eucaristia não estamos pensando primeiramente na hóstia e no vinho consagrados, mas sim na Celebração eucarística, isto é, na Missa, sacrifício eucarístico do Corpo e do Sangue do Senhor, para perpetuar no decorrer dos séculos, até que ele venha, o sacrifício da cruz! Então, a Eucaristia é a Missa! Mas, que significa “missa”? Onde, nas Escrituras Sagradas, se fala nela?
No decorrer da história este sacramento teve vários nomes, cada um deles sublinhando um aspecto deste mistério tão rico.
Primeiramente chamou-se “Eucaristia”, palavra grega que significa, “ação de graças”. O termo aparece muitas vezes o Novo Testamento e refere-se à bênção de ação de graças que tantas vezes Jesus pronunciou nas suas refeições com os discípulos: “E tomou o pão, deu graças (= eucaristizou), partiu e distribuiu-o entre eles, dizendo: ‘Isto é o meu corpo que é entregue por vós” (Lc 22,19); “O Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças (= eucaristizar), partiu-o...” (1Cor 11,23s). Na religião dos judeus, a bênção de ação de graças era proclamação das obras de Deus: a criação, a redenção e a santificação. Israel dava graças pelas grandes obras do Senhor em seu favor. Por isso, os cristãos, cumprindo a ordem do Senhor Jesus, celebram a Ação de Graças a Deus pela sua grande obra: ter entregado o seu Filho desde a encarnação até a consumação na cruz, tê-lo ressuscitado dos mortos e o feito assentar-se à sua direita na glória. Assim, celebrar a santa Eucaristia é bendizer e agradecer a Deus por tudo que nos fez pelo seu santo Filho Jesus.
Outro nome dado à Eucaristia, já no novo Testamento, foi “Ceia do Senhor” (cf. 1Cor 11,20), porque este sacramento é a celebração daquela ceia que o Senhor comeu com os seus discípulos na véspera da Páscoa. Por um lado, aquela ceia era já a celebração ritual, em gestos, palavras e símbolos, daquilo que o Senhor iria realizar no dia seguinte: ele se entregaria totalmente na cruz, iria nos dar seu corpo e seu sangue: “Comei: isto é o meu corpo que será entregue na cruz! Bebei: isto é o meu sangue que será derramado por vossa causa!” Por outro lado, esta ceia sagrada, chamada Última Ceia, já antecipava a ceia das núpcias do Cordeiro, núpcias de Cristo ressuscitado com sua Esposa, a Igreja, na Jerusalém celeste: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9). Participar da Ceia do Senhor é não somente participar da Ceia que Jesus celebrou como memorial de sua paixão, morte e ressurreição, mas também já antecipar, já saborear, na força do Espírito Santo, a ceia do Banquete celeste, quando o próprio Esposo, Jesus, será o alimento eterno para sua Esposa, a Igreja. Em outras palavras: é uma ceia que começa na terra e durará no céu, por toda a eternidade!
Mais um nome para este sacramento santíssimo: “Fração do Pão”. É um nome antigo, presente também já no novo Testamento, sobretudo nos Atos dos Apóstolos. Este rito de partir o pão, típico da ceia judaica, foi muitas vezes repetido por Jesus quando abençoava e distribuía o pão (cf. Mt 14,19; 15,36; Mc 8,6.19) e, sobretudo, na Última Ceia, quando ele partiu o pão. Através desse mesmo gesto, os discípulos reconheceram o Senhor ressuscitado: eles o reconheceram ao partir o pão (cf. Lc 24,13-35). Por tudo isso, os primeiros cristãos usavam a expressão “fração do pão” para designar suas reuniões nas quais, na ceia, partiam o pão como Jesus e em memória de Jesus. Deste modo, os primeiros cristãos queriam revelar a consciência que tinham que todo aquele que come o único pão partido, pão da Eucaristia, que´e o próprio Senhor ressuscitado, entre em comunhão com ele e forma com ele um só corpo, que é a Igreja: “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão” (1Cor 10,16s).
Um outro nome, que era caro aos santos doutores da Igreja Antiga, sobretudo os de língua grega, era “Santa Synáxis”, que significa “assembléia”, “reunião”. Isto porque a Eucaristia é para ser celebrada pela Comunidade eclesial presidida pelo ministro ordenado. Onde a Comunidade se reúne para a Eucaristia, aí está a Igreja, povo de Deus reunido no único Espírito Santo, para oferecer o único sacrifício do Filho Jesus para a glória do Pai e salvação do mundo inteiro.
Continuaremos no próximo artigo. Ainda temos muito para ver.
O Sacramento da Eucaristia – II PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:24
Côn. Henrique Soares da Costa
No tópico passado de nossa série sobre a Eucaristia, começamos a ver os vários nomes dados a esse Sacramento e seus significados respectivos. Continuemos ainda.
A Eucaristia é chamada também de “Memorial” da Paixão e Ressurreição do Senhor. Vale a pena compreender bem o sentido da palavra “memorial”. Ela não significa simplesmente recordação ou memória. Nas Escrituras, memorial é dito zikaron e significa tornar presente, por gestos, símbolos e palavras, um fato acontecido no passado uma vez por todas. Por exemplo: uma vez por ano, os judeus celebravam e celebram ainda hoje a Páscoa, memorial da saída do Egito. Pois bem, eles, nessa celebração, não somente recordam a passagem da escravidão para a liberdade, mas tinham e têm a consciência que, participando da celebração, participam realmente da própria libertação que Deus operara. Tanto isso é verdade que, ainda hoje, o pai de família judeu, aquele que preside à celebração, diz assim: “Em toda geração, cada um deve considerar-se como se tivesse pessoalmente saído do Egito, como está escrito: ‘Explicarás então a teu filho: isto é em memória do que o Senhor fez por mim, quando saí do Egito’. Portanto, é nosso dever agradecer, honrar e louvar, glorificar, celebrar, enaltecer, consagrar, exaltar e adorar a quem realizou todos esses milagres por nossos pais e para nós mesmos. Ele nos conduziu da escravidão à liberdade, do sofrimento à alegria, da desolação a dias festivos, da escuridão a uma grande claridade e do cativeiro à redenção”. E, depois, acrescenta: “Bendito sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que nos redimiste, libertaste nossos pais do Egito, e nos permitiste viver esta noite para participar do Cordeiro, do pão ázimo e das ervas amargas”. Ora, é exatamente isso que a Eucaristia é: memorial da Páscoa do Senhor Jesus. Quando nós a celebramos, torna-se presente no nosso hoje, na nossa vida, na nossa situação, tudo quanto Jesus fez por nós, que alcança seu cume na sua morte e ressurreição. Deste modo, a Páscoa do Senhor está sempre presente e atuante na nossa vida e, através de Jesus e com Jesus, podemos dizer ao Pai como os judeus dizem: “é nosso dever agradecer, honrar e louvar, glorificar, celebrar, enaltecer, consagrar, exaltar e adorar a ti, Adonai, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!” Então, assim sendo, não é uma idéia muito exata afirmar que a missa é a repetição ou a renovação do sacrifício de Cristo. Não se repete, porque ele foi oferecido uma vez por todas; não se renova, porque não ficou caduco, envelhecido. Em cada missa torna-se presente, atuante, o único sacrifício pascal do Senhor, memorial de sua encarnação, de sua vida humana, de sua paixão, morte e ressurreição, de sua ascensão ao Pai e do dom do Espírito que ele nos fez!
Outra denominação para a Missa é “Santo Sacrifício”. Isto porque, como já dissemos, ela torna presente, “presentifica”, o único e irrepetível sacrifício do Cristo salvador; sacrifício que o Senhor Jesus deu à sua Igreja para que ela o ofereça até que ele venha em sua Glória. Por isso mesmo, é chamado de sacrifício de louvor, sacrifício espiritual (porque oferecido na força do Espírito Santo), sacrifício puro e santo (porque sacrifício do próprio Cristo Jesus). Este santo sacrifício da Missa leva à plenitude todos os sacrifícios de todas as religiões e, particularmente, aqueles do Antigo Testamento. Podemos até recordar as palavras da profecia de Malaquias, na qual Deus prometia a Israel um sacrifício perfeito ao seu nome: “Sim, do levantar do sol ao seu poente o meu nome será grande entre as nações, e em todo lugar será oferecido ao meu nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura” (1,11). Cristo, com seu sacrifício único e irrepetível, que entregou à sua Igreja para celebrá-lo até que ele venha, ofereceu este sacrifício, cumprindo a profecia.
Ainda um outro nome para a Missa: “Santa e Divina Liturgia”. São os católicos orientais que gostam mais de denominar assim a Eucaristia. Chamam-na “liturgia” porque toda a liturgia da Igreja (todas as suas celebrações), encontra seu centro, sua fonte, seu cume e sua mais densa expressão na celebração da Eucaristia. É no mesmo sentido que chamamos a Missa de “Santos Mistérios”. “Mistérios”, falando teologicamente, são os sacramentos, são os gestos e palavras pelas quais a salvação chega até nós. Ora, o Mistério da Eucaristia é o canal privilegiado pelo qual entramos em contato com a graça advinda da Páscoa do Cristo Jesus!
“Comunhão” – eis aqui outro nome dado à Eucaristia. Nome belíssimo! É chamada assim porque nela nos unimos a Cristo, que nos faz cada vez mais membros do seu Corpo e, assim, membros uns dos outros – pois o Corpo de Cristo é a Igreja, que somos nós. Comungando no Corpo do Senhor, entramos em comunhão com Cristo e, em Cristo, pleno do Santo Espírito, entramos em comunhão uns com os outros.
Outra expressão, também cara aos nossos irmãos católicos orientais, é “Coisas Santas”. Coisas Santas são o Pão e o Vinho eucarísticos, Corpo e Sangue do Senhor, que cria a Comunhão dos Santos, que é a Igreja. Comungando as Coisas Santas, entramos em comunhão uns com os outros em Cristo, tornamo-nos membros da Comunhão dos Santos, que é a Igreja, e comprometemo-nos a viver tal comunhão na vida de cada dia, como comunhão de vida, pela solidariedade, pela partilha, pelo amor fraterno.
Finalmente, o termo mais popular entre nós: “Missa”. Esta palavra foi adotada na Idade Média e vem do latim “missio” (= missão, envio). Recorda a despedida da Celebração eucarística: “Ite, missa es!t” É este “ide!” que exprime a missão (= a missio) de quem participa da Eucaristia. Celebrar a Páscoa do Senhor exige do cristão a missão de testemunhar e anunciar o Cristo. É como se, ao final da Celebração, fosse-nos dito: agora que vocês participaram do Corpo e do Sangue do Ressuscitado, vão pelo mundo e testemunhem sua vitória. Ele está vivo! Vocês, que comeram e beberam com ele, serão testemunhas disso até os confins da terra!

O Sacramento da Eucaristia – III PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:23
Pe. Henrique Soares da Costa
Já vimos, de modo geral, o que é a Eucaristia. Vimos também os vários nomes que são dados a este Sacramento e seus vários significados. Agora vejamos como ele está presente na Sagrada Escritura.
Já durante o seu ministério público, o Senhor Jesus foi dando indicações daquilo que depois seria este santo Sacramento. Vejamos algumas, mais significativas.
Primeiramente dois sinais particularmente importantes, realizados pelo Senhor: ele transformou água em vinho e multiplicou os pães. Mais ainda: várias vezes comparou o Reino de Deus a um banquete. Sobretudo em Jo 6,51ss, as palavras de Cristo são bem claras: “Eu sou o pão descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo. Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem em ao beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, pois minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente bebida. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que come de mim, viverá por mim”. O texto não permite pensar em metáforas; trata-se, ao invés, de algo real, concreto: o pão e o vinho eucarísticos são, realmente, o corpo e o sangue do Senhor. Por isso mesmo, os evangelhos, quando narram a multiplicação dos pães, usam sempre as mesmas palavras para indicar os gestos de Jesus na Última Ceia: ele tomou o pão, deu graças, partiu e distribuiu (cf. Mt 14,13-21; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13; Mc 8,1-10). A Eucaristia, já preparada pelo Cristo, foi por ele instituída na Última Ceia: aí o Senhor deu à Igreja o mandamento do amor – ele mesmo, que nos amou até o extremo da cruze da sepultura e se colocou como modelo e medida do amor. E para deixar o sacramento, o penhor desse amor mais forte que a morte, instituiu a Eucaristia como memorial de sua morte e ressurreição, de sua entrega amorosa, pascal! Assim, no momento de fazer sua Passagem (= Páscoa) do mundo para o Pai através de sua entrega de amor na cruz, o Cristo Jesus deixou para a sua Igreja o sacramento de sua Páscoa de amor: o sacrifício eucarístico! Cumpriu-se, assim, a Páscoa dos judeus, que era memorial da passagem da escravidão de morte no Egito para uma libertação de vida na Terra Prometida. Jesus deu à Páscoa dos judeus seu significado definitivo: a nova Páscoa, Páscoa de Jesus, foi antecipada na Ceia, é continuamente celebrada na Eucaristia, que leva a cumprimento a Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja, quando passaremos deste mundo para o Pai com Jesus e por causa de Jesus.
É interessante observar já aqui que a instituição da Eucaristia por Cristo dá-se no contexto, no clima, de entrega e sacrifício de sua vida: “É o meu corpo, que será entregue; é o meu sangue, que será derramado”... Finalmente, o Senhor ordena que a Igreja celebre o seu gesto até que ele venha (cf. 1Cor 11,26). Foi isto que a Igreja sempre fez ao celebrar a Eucaristia. O Novo Testamento nos dá muitíssimos exemplos disso. Desde o início, a Igreja foi fiel à Fração do Pão (cf. At 2,42.46). Sobretudo no primeiro dia da semana, aquele dia que o Apocalipse chama já de Dia do Senhor (cf. 1,10), os cristãos se reuniam para partir o pão: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a Fração do Pão, Paulo entretinha-se com eles...” (At 20,7). Este texto é importante. Aqui aparece a Celebração eucarística aos domingos, logo no início do cristianismo. Aquilo que a Igreja faz hoje – celebrar dominicalmente a Eucaristia -, sempre fez, desde a época apostólica, por ordem do Senhor Jesus! Assim, como diz o Catecismo da Igreja, “de celebração em celebração, anunciando o mistério pascal de Jesus, ‘até que ele venha’ (1Cor 11,26), o Povo de Deus avança, caminhando pela estrada da cruz, rumo ao banquete celeste, quando todos os eleitos haverão de sentar-se à mesa do Reino” (n. 1344).
Para ilustrar o que dissemos, baste-nos, por agora, o profundo texto de São Paulo, em sua primeira Epístola aos Coríntios: “Eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti: na noite em que foi entregue o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória (= memorial) de mim’. Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória (= memorial) de mim’. Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,23-26). Um pouco mais tarde, lá pelo ano 155, São Justino, mártir cristão, explicaria ao Imperador romano, Antonino Pio: “No dia chamado ‘do Sol’ (= é o domingo cristão), reúnem-se todos juntos, habitantes das cidades e dos campos. São lidas as memórias dos Apóstolos (= nossos evangelhos atuais e os outros livros do Novo Testamento) e os escritos dos profetas (= o Antigo Testamento), tanto quanto o tempo permite. Depois, quando o leitor termina, aquele que preside nos admoesta e nos exorta a imitar esses bons exemplos. Depois, todos juntos, nos colocamos em pé e elevamos orações seja por nós mesmos, seja por todos os outros, onde quer que se encontrem... Terminadas as orações (= oração dos fiéis), saudamo-nos uns aos outros com um beijo. Depois, são trazidos àquele que preside um pão e um cálice de água e vinho. Ele os toma e eleva o louvor e glória ao Pai do universo em nome do Filho e do Espírito Santo e faz uma ação de graças (= em grego, ‘eucaristia’. É a atual Oração eucarística) para que esses dons sejam dignos de Deus. Quando ele termina as orações e a ação de graças (= a Oração eucarística), todo o povo presente aclama: ‘Amém’. Depois que o que preside fez a ação de graças e todo o povo aclamou, aqueles que nós chamamos diáconos distribuem a cada um dos presentes o pão e o vinho com água ‘eucaristizados’ e os levam aos ausentes...”
Que coisa linda! Dois mil anos se passaram e a Igreja de Cristo, fidelíssima à Tradição Apostólica, continua fazendo o que sempre fez: celebrando a Eucaristia até que venha o seu Senhor!


O Sacramento da Eucaristia – V PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:19
Pe. Henrique Soares da Costa
Nos últimos dois tópicos, vimos textos da Escritura que tratam da Eucaristia. Agora, veremos alguns textos da Igreja antiga, que mostram bem o quanto a Comunidade cristã sempre celebrou e viveu o Sacramento do corpo e do sangue do Senhor.
Santo Inácio de Antioquia, mártir de Cristo, lá pelos anos 90 do século I da era cristã, aconselhava aos Efésios: “Procurai, pois, reunir-vos com mais freqüência, para dar a Deus a ação de graças (= Eucaristia) e louvor. Porque quando vos congregais com freqüência num mesmo lugar, quebram-se as forças de Satanás”. Para o santo bispo de Antioquia, a Eucaristia, único corpo do Senhor, é sacramento (= sinal eficaz) da unidade da Igreja. Aos filadélfios, ele exortava: “Esforçai-vos, portanto, para usar uma só Eucaristia, pois uma só é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só é o cálice que nos une no seu sangue, um só altar, como um só Bispo junto com o presbitério e com os diáconos”. Sendo conduzido preso para Roma para ser jogado às feras por causa de Cristo, Santo Inácio assim escrevia aos romanos: “Não sinto prazer pela comida corruptível nem pelos deleites desta vida. Quero o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo e por bebida, quero o sangue dele, o qual é a caridade incorruptível”.
Um outro belo testemunho encontra-se na Didaqué, que é o primeiro catecismo da Igreja, escrito lá pelo final do século I. Com palavras que hoje emocionam qualquer católico, o autor, no início do cristianismo, orienta os cristãos sobre o modo de celebrar o Sacramento da Missa: “No que concerne à Eucaristia, celebrai-a da seguinte maneira: primeiro sobre o cálice, dizendo: ‘Nós te damos graças (eucharistoumen = te fazemos eucaristia), nosso Pai, pela santa vinha de Davi, teu servo (= a vinha é a Igreja, Davi é o Cristo), que tu revelaste por Jesus, teu servo. A ti a glória pelos séculos! Amém’. Sobre o pão a ser fracionado: ‘Nós te agradecemos, nosso Pai, pela vida e pelo conhecimento que nos revelaste por Jesus, teu servo. A ti a glória pelos séculos. Amém. Ó Pai, da mesma maneira como este pão partido primeiro fora semeado sobre as colinas e depois recolhido para tornar-se um, assim, das extremidades da terra seja unida a tua Igreja em teu Reino!’ Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor. Pois a respeito dela o Senhor disse: ‘Não deis aos cães as coisas santas!’” Observemos como neste texto a Eucaristia aparece como ação de graças ao Pai por Jesus e como o Sacramento que reúne a Igreja na unidade. Mais adiante, ainda na Didaqué, o autor recomenda: “Reuni-vos no Dia do Senhor (= Domingo, Dies Domini) para a Fração do Pão e celebrai a Eucaristia, depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro. Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter reconciliado, a fim de que vosso sacrifício não seja profanado. Com efeito, deste sacrifício disse o Senhor: ‘Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um sacrifício puro, porque sou um grande rei – diz o Senhor – e o meu nome é admirável entre todos os povos!’” É emocionante ver um texto do primeiro século cristão que exprime a fé da Igreja apostólica e perceber que ainda hoje, dois mil anos depois, a Igreja de Cristo permanece fiel à fé de nossos antepassados: no Domingo, os cristãos participavam da Eucaristia, sabendo que ela é o sacrifício do Senhor Jesus! Dá pena ver tantas e tantas seitas cristãs que, abandonando a fé católica, recebida desde o início, mutilaram tristemente a fé transmitida pelos Apóstolos!
Num outro artigo sobre a Eucaristia, já citei um belíssimo texto de São Justino, mártir, que lá pelo ano 155, explicava como se celebrava este Sacramento. Agora, cito ainda um texto seu. Vele a pena! “Este alimento é chamado entre nós de Eucaristia, do qual a nenhum outro é permitido participar, senão a quem crê que nossa doutrina é verdadeira e que foi purificado com o Batismo para o perdão dos pecados e para a regeneração e que vive como Cristo nos ensinou. Porque estas coisas, nós não as tomamos como pão comum nem bebida comum, mas assim como o Verbo de Deus, havendo-se encarnado em Jesus Cristo, nosso Salvador, tomou carne e sangue para nossa salvação, assim também nos foi ensinado que o alimento eucaristizado mediante a palavra da oração que vem dele... é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou!” Notemos como aparece claríssima a convicção de que o pão e o vinho eucaristizados (= consagrados) são verdadeiramente corpo e sangue do Senhor!
Também Santo Irineu, o grande Bispo de Lião, na Gália do século II, tem palavras belíssimas sobre a Eucaristia. Tomemos algumas. No primeiro texto, combatendo os hereges gnósticos, que negavam a ressurreição, avós do espiritismo e da Nova Era, ele usa a Eucaristia como prova de que os mortos ressuscitam carnalmente. Eis: “Como (os hereges) podem dizer que a carne se corrompe e não participa da vida (= não ressuscita), ela que é alimentada com o corpo e sangue do Senhor? Portanto (os hereges), ou mudem de opinião ou deixem de oferecer as ditas coisas (= o pão e o vinho eucarístico, que eles ofereciam nas missas deles). Para nós, contudo, nossa crença concorda com a Eucaristia e a Eucaristia, por sua vez, confirma a nossa crença. Porque assim como o pão que é da terra, recebendo a invocação de Deus (= quando o padre impõe as mãos pedindo o Espírito Santo e pronunciando as palavras da consagração), já não é pão ordinário, mas sim Eucaristia, assim também nossos corpos, recebendo a Eucaristia, não são mais corruptíveis, mas possuem a esperança da ressurreição para sempre!” Este texto é de uma beleza e de uma profundidade impressionantes! Santo Irineu garante: nós ressuscitaremos e já recebemos a garantia da ressurreição, que é a Eucaristia. O pão, depois de consagrado, é o corpo do Senhor, é pão de vida, assim, nossa carne que recebe a carne ressuscitada de Cristo, cheia do Espírito Santo, não permanecerá na morte, mas ressuscitará, exatamente como Jesus prometera: “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia!” (Jo 6,54).
Ainda um texto de Santo Irineu, para fazer corar de vergonha qualquer um que nogue que nossa carne ressuscitará: “quando pois, o cálice misturado (com água) e o pão recebem o Verbo de Deus e se fazem Eucaristia, Corpo de Cristo, com o qual a substância de nossa carne aumenta e se faz, como podem dizer que nossa carne não é capaz do dom de Deus, que é a vida eterna, a carne alimentada com o corpo e o sangue do Senhor e feita membro dele?” A questão colocada aqui por Santo Irineu é clara: como é que os hereges têm coragem de dizer que nossa carne, nosso corpo, não pode ressuscitar, não pode herdar a vida eterna, se ela é alimentada com a Eucaristia? A Eucaristia é, portanto, penhor de nossa ressurreição. É por isso que nossa Mãe católica tem tanto cuidado e pede tanto aos padres que assistam os doentes às portas da morte, para que eles recebam em viático a comunhão. Aí, o padre diz ao que está morrendo: “O corpo de Cristo te guarde para a vida eterna!” Que coisa, que graça: morrer alimentando-se com a Vida que vence a morte; morrer unido – carne na carne! – Àquele que destruiu a morte! Santa Eucaristia!



O Sacramento da Eucaristia – VI PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:17
Pe. Henrique Soares da Costa
Veremos, agora, a estrutura da Eucaristia, isto é, como se organiza, como se desenvolve a Celebração eucarística.
Já vimos, num dos tópicos anteriores, São Justino descrevendo, no século II, a celebração. Os elementos básicos de então permanecem ainda hoje. Primeiramente, segundo antiga tradição, a missa divide-se em duas grandes partes: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Na primeira parte, a Palavra de Deus é proclamada e, na homilia, interpretada à luz do Cristo Jesus, de modo a iluminar a vida dos cristãos na sua situação concreta do dia-a-dia. Após a proclamação da Palavra, pelo Credo e a Oração dos fiéis, respondemos ao Deus que nos falou. Assim termina a primeira parte da missa, toda ela centrada no ambão (a estante donde se faz as leituras e a homilia) – é a Mesa da Palavra!
A segunda parte da missa é a mais importante: a Liturgia Eucarística, cujo centro é o altar, que simboliza o próprio Cristo Jesus, pedra angular da Igreja. Nesta parte da missa, a Igreja torna presentes os quatro gestos de Jesus: ele (1) tomou o pão, (2) deu graças, (3) partiu e (4) distribuiu... e mandou que fizéssemos isso em sua memória. Vejamos como estes quatro gestos se desenrolam na celebração.
Jesus tomou o pão. Este gesto do Senhor é tornado presente na apresentação das ofertas ao Altar: pão, vinho e água, que simbolizam tudo quanto a criação e o nosso trabalho produzem e que, em nome de toda a criação, unidos ao Filho Jesus, oferecemos ao Pai na força do Espírito Santo. Neste momento também, segundo antiqüíssima tradição da Igreja, os membros da Comunidade dão suas esmolas: o que trouxe para os pobres e para a manutenção da Casa de Deus e despesas da Comunidade paroquial.
Ele deu graças (quer dizer, ele fez eucaristia = ação de graças). A Igreja torna presente este gesto do Senhor na grande oração eucarística, que vai do prefácio da missa até a doxologia (o “por Cristo, com Cristo, em Cristo”). Aí ela recorda (= faz memorial) ao Pai tudo quanto Cristo fez por nós. O celebrante, em nome de toda a Comunidade eclesial, pede ao Pai que derrame o Espírito do Cristo ressuscitado sobre o pão e o vinho para que eles, pelas palavras da consagração, sejam eucaristizados, transformando-se no corpo e no sangue do Ressuscitado – é a consagração. É importante observar que a narração da consagração não é feita à comunidade, mas ao Pai: é a ele que recorda tudo quanto o Senhor Jesus fez para nossa salvação, é diante dele, Pai de Jesus e nosso Pai, que a Igreja celebra a memória da morte e ressurreição de Cristo. É como se o celebrante dissesse: “Ó Pai, recorda-te do teu Filho Jesus. Ele, na noite em que foi entregue...” Em seguida, ainda na grande Oração eucarística, o celebrante pede pela Igreja, pelos ministros sagrados e pelo povo de Deus, pelos vivos e mortos, pelo mundo inteiro... tudo isso ao Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo, na unidade do Espírito Santo. E a Comunidade responde “Amém!”, deixando claro que a oração do celebrante foi oração de toda a Igreja. Assim termina a grande Eucaristia (= ação de graças), o segundo gesto de Jesus.
Aí, vem a preparação para a comunhão, com a oração do Pai-nosso. Depois, o celebrante faz memória do terceiro gesto de Cristo: ele partiu o pão. Só aí – e não antes – é que o pão deve ser fragmentado! Este gesto é muito importante, pois recorda o próprio Jesus: seus discípulos o reconheceram ao partir o pão.
Realizado tudo isto, fazemos memória do último dos gestos que o Senhor nos mandou realizar: ele deu aos seus discípulos. É a comunhão eucarística no corpo e no sangue do Senhor. É o celebrante quem, em nome de Cristo, distribui a comunhão. Ele pode ser ajudado pelos ministros ordinários da comunhão (os padres concelebrantes e os diáconos) e pelos ministros extraordinários (os acólitos instituídos pelo bispo e os outros ministros da comunhão daquela paróquia).
Pronto! Feito tudo isso em memória do Senhor, o sacerdote conclui com a oração final. Depois – e somente depois – vêm os avisos da Comunidade e o povo recebe a bênção e é despedido.
Como podemos ver, a Celebração eucarística é toda ela bíblica. Com o tempo, mudam os ritos secundários, o modo de celebrar, mas nunca a essência.
É importante observar ainda que os gestos, as palavras, os ritos, as vestes, as várias funções, tudo isso tem um significado e deve ser respeitado e bem preparado. A Eucaristia deve ser celebrada sempre num clima de respeito, de piedade e reverência. O missal, que traz o rito da missa, deve ser seguido fielmente. Nem a comunidade nem o padre que preside podem fazer alterações que desobedeçam as normas litúrgicas da Igreja ou deturpem o sentido da celebração e a sua estrutura fundamental. A Eucaristia não é propriedade do celebrante nem da comunidade, mas sim um dom concedido a toda a Igreja, para que o guarde com amor e fidelidade, respeito e devoção até que o Senhor venha.
Continuaremos ainda no próximo tópico...


O Sacramento da Eucaristia – VII PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:16
Já vimos vários aspectos do sacramento da Eucaristia. Há ainda muito para ser visto. É assim mesmo: quando o mistério é grande demais, nossas palavras e idéias tornam-se tão pobres para exprimi-lo!
No presente artigo, veremos que a Eucaristia é realmente o sacrifício de Cristo. Trata-se de uma convicção presente na fé da Igreja e, no entanto, foi infelizmente contestada pelos Reformadores protestantes. Vamos seguir o Catecismo da Igreja Católica.
Recordemos: Cristo instituiu a Eucaristia na véspera de seu sacrifício e num clima sacrifical: “É o meu corpo, entregue por vós; é o meu sangue por vós derramado!” Assim, na Eucaristia, é o próprio Cristo, na sua entrega, no seu sacrifício, que se oferece ao Pai por todos nós. Mas, como poder ser isso? A Carta aos Hebreus diz claramente que Jesus se ofereceu por nós uma vez por todas: “Cristo não precisa, como os sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios a cada dia, primeiramente por seus pecados e depois pelos do povo. Ele já o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo” (Hb 7,27). “Ele entrou uma vez por todas no Santuário, não com o sangue de bodes e de novilhos, mas com o próprio sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12). “Cristo (...) entrou no próprio céu, a fim de comparecer agora diante da face de Deus a nosso favor. E não foi para oferecer-se a si mesmo muitas vezes, como o Sumo Sacerdote que entra no Santuário cada ano com sangue de outrem” (Hb 9,24s). “Cristo foi oferecido uma vez por todas para tirar os pecados da multidão” (Hb 9,28b). “Somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas. De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que ele santifica” (Hb 10,10.14).
Como, pois, podemos afirmar que a Eucaristia celebrada continuamente pela Igreja até que o Senhor venha, é o sacrifício de Cristo? Recordemos, primeiramente, o que já foi dito sobre o memorial bíblico: este não é somente a recordação ou a repetição dos acontecimentos do passado, mas a proclamação da ação salvadora de Deus. Foi assim com a Páscoa dos judeus; assim também com a Páscoa de Cristo: cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia, ela faz memorial do sacrifício do seu Senhor, isto é, torna-se presente sobre o Altar, na potência do Espírito Santo, que supera o tempo e o espaço, o único, irrepetível e eterno sacrifício do Senhor morto e ressuscitado! Assim, quando a Comunidade eclesial faz memorial da Páscoa do Cristo e esta se torna presente nos tempos do nosso tempo, da nossa vida, é o próprio sacrifício do Cristo oferecido uma vez por todas, sua oferta amorosa e eterna ao Pai, que permanece sempre presente e atual na nossa vida. Por isso, a Igreja ensina que toda vez que o sacrifício da cruz, com o qual Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado, é celebrado sobre o Altar, realiza-se a obra da nossa redenção. No sacrifício eucarístico, Cristo nos dá o mesmo Corpo que entregou por nós na cruz e o mesmo Sangue que derramou por todos, para a remissão dos pecados. Assim, a Eucaristia torna presente (= re-presenta) o sacrifício da cruz, pois é seu memorial. Eis o ensinamento do Concílio de Trento: “Cristo, Deus e Senhor nosso, mesmo tendo se imolado a Deus Pai uma só vez morrendo sobre o altar da cruz para realizar uma redenção eterna, porque, todavia, o seu sacerdócio não deveria extinguir-se com a morte (Hb 7,24.27), na última Ceia, na noite em que foi entregue, ele quis deixar à Igreja, sua amada Esposa, um sacrifício visível, como exige a natureza humana, com o qual fosse aquele sacrifício cruento que ele ofereceu uma vez por todas sobre a cruz, prolongando sua memória até fim do mundo (1Cor 11,23) e aplicando a sua eficácia salvífica para a remissão dos nossos pecados cotidianos”. Assim, o sacrifício da cruz e o sacrifício da Missa são um único sacrifício. Como ensina ainda o Concílio de Trento: “Trata-se, com efeito, de uma só e idêntica vítima e o mesmo Jesus se oferece pelo ministério dos sacerdotes, ele que um dia se ofereceu a si mesmo na cruz. Neste divino sacrifício, que se realiza na Missa, está contido e imolado de modo incruento o mesmo Cristo que se ofereceu uma só vez de modo cruento no altar da cruz”.
Este sacrifício, oferecido pelo Cristo ao Pai, é também sacrifício da Igreja, já que esta é Corpo de Cristo, e ele é Cabeça do Corpo eclesial. Com ele, a Igreja se oferece toda inteira ao Pai na unidade do Espírito Santo, e se une à eterna intercessão dele, que é o único mediador entre Deus e os homens. Assim, é toda a Igreja que é unida à oferta e intercessão de Cristo! E quando eu digo Igreja, refiro-me à Igreja da terra, que peregrina rumo à Pátria, à Igreja que se purifica e à Igreja da Glória, com a Virgem e todos os anjos e santos!
Veremos, no próximo tópico, que a Eucaristia é, também, banquete, é presença real de Cristo e faz a unidade da Igreja.



O Sacramento da Eucaristia – VIII PDF Imprimir E-mail
Eucaristia
Seg, 29 de Dezembro de 2008 11:14
Já vimos que a Eucaristia é o verdadeiro sacrifício do Novo Testamento, sacrifício do próprio Cristo, entregue por ele À sua Esposa, a Igreja, para que o ofereça em celebração até que ele volte. Veremos agora que a Eucaristia é também banquete: o Altar do sacrifício é também Mesa sagrada da refeição e da comunhão com o Senhor e os irmãos!
Antes de tudo, recordemos o Antigo Testamento que, além dos holocaustos (figuras do sacrifício que Cristo ofereceu e se torna presente em cada Eucaristia), conhecia também os sacrifícios de comunhão: aí se oferecia uma parte da vítima no altar e a outra parte era consumida num banquete pelos fiéis na presença do Senhor. O significado é belíssimo: faço refeição com o Senhor, à mesma mesa... Recordemo-nos que, para os orientais, comer à mesma mesa significa participar da mesma vida, da mesma sorte... significa ser amigos. Assim, quando os fiéis comiam à mesa do Deus de Israel, queriam exprimir a união de vida com Ele e com os outros participantes do banquete sacrifical (cf. Lv 7,11-21; 22,29-30). Tudo isto era preparação para a comunhão que o Senhor queria estabelecer conosco, uma comunhão inimaginável, estupenda: ele próprio daria seu Filho, morto e ressuscitado, pleno do Espírito Santo, como nosso alimento, como vida de nossa vida!
A Eucaristia, portanto, não somente é sacrifício, mas também banquete, aquele banquete tantas e tantas vezes anunciado pelos profetas! É importante insistir no significado do banquete: os convidados partilhavam a mesma vida (que vem do alimento e da bebida), por isso, participam da mesma alegria, da mesma intimidade, da mesma existência: na terra de Jesus só se convidava para um banquete os amigos! É por isso que o banquete é sinal de felicidade, de paz e de vida, porque é sinal de comunhão. Isso era ainda mais verdadeiro e forte no banquete dado pelo rei. Somente os altos dignitários participavam da mesa do rei. Assim, participar do banquete real era estar em comunhão com o rei, era ver a face do rei (que poucos viam no Oriente). Pois bem, tudo isso Deus nos concedeu na Eucaristia: “Minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,55s).
Pensemos agora um pouco: participar do banquete eucarístico é participar da Vida que o próprio Deus deu ao seu Filho ao ressuscitá-lo dos mortos. Como não pensar naquelas palavras de São João? “Deus nos deu a Vida eterna e esta Vida está em seu Filho! Quem tem o Filho, tem a Vida” (1Jo 5,11). É por isso que Jesus diz claramente: “Em verdade em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). Eis, que mistério tão grande e tão santo! Participar do Pão e do Vinho eucarísticos é entrar em comunhão de Vida com Aquele que é Morto e Ressuscitado, com o Cordeiro eternamente imolado por nós! Participar das Espécies eucarísticas, das Coisas santas, é receber a própria Vida, aquela que Jesus recebeu na sua ressurreição, aquela Vida que estava junto do Pai e que nos apareceu (cf. 1Jo 1,2). Cada participação na Eucaristia é uma transfusão de vida eterna que recebemos, até que a consumemos na Glória!
Mas, tem mais ainda: comungar no Corpo e no Sangue do Senhor, Cabeçada Igreja, é entrar em comunhão com os irmãos que formam a Igreja. Nós somos con-corpóreos uns dos outros e somos consangüíneos uns com os outros, porque todos temos um só corpo (o Corpo de Cristo) e temos um só sangue (o Sangue de Cristo). Somos irmãos carnais, irmãos de sangue, irmãos eucarísticos! Por isso, São Paulo nos ensina: “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão” (1Cor 10,16s). Difícil dizer isso com palavras mais bonitas! No Banquete eucarístico acontece a comunhão entre nós e Cristo e, por ele, a comunhão entre nós, no único Espírito Santo de Cristo ressuscitado. Nunca nos esqueçamos que o Pão e o Vinho eucarísticos foram cristificados pela ação do Espírito do Ressuscitado! É por isso que a Eucaristia faz a Igreja: neste santo Banquete nos tornamos sempre mais corpo do Senhor, Igreja do Senhor!
Por tudo isso, é absolutamente incompreensível que alguém participe da Missa sem comungar! O sacrifício eucarístico tende para esta comunhão entre nós e o Cristo, que se consuma quando comungamos! Somente por razões gravíssimas devemos nos abster da comunhão. Caso contrário, temos a obrigação de amor e de sede de vida de procurar o sacramento da Penitência e nos reconciliar com Cristo e a Igreja, de modo a participar plenamente do Banquete eucarístico! Ninguém vai a um jantar e fica sem comer... Certamente, há casos em que o mais aconselhável é não receber a comunhão... Mas aí não é por desleixo ou descaso, mas por coerência e coragem de quem é maduro para assumir que está em alguma situação particularmente problemática em relação ao Evangelho. É o caso, por exemplo, dos que estão unidos em segunda união já sendo casados na Igreja e o primeiro cônjuge ainda estando vivo. Mas, que esses irmãos e irmãs não se desesperem: o Senhor também vem a eles e para eles, pois conhece a sua história e vê o seu coração. É preciso recordar que, se a Igreja está ligada aos sacramentos, o Senhor não está: ele é o Senhor dos sacramentos e pode vir com sua graça de modo desconhecido e inesperado para nós. É bom recordar também que aqui não se trata de julgar os outros ou dizer que alguém não é digno de comungar! Quem de nós é digno? Quem ousaria pensar-se digno do Senhor? A Igreja, ao invés, nos ensina a dizer, antes de cada comunhão: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada!” A regra, no entanto, é clara: o quanto possível, comungar sempre, em cada Eucaristia da qual participarmos! É o ensaio geral para o banquete eterno, quando seremos saciados eternamente da glória de Cristo.
Gostaria de terminar com as palavras emocionantes da Liturgia de São João Crisóstomo: “Ó Filho de Deus, faz-me hoje participante do teu místico Banquete. Não entregarei o teu Mistério aos teus inimigos nem te darei o beijo de Judas. Mas, como o ladrão, eu te digo: Recorda-te de mim, Senhor, quando estiveres no teu Reino!”